Sequestro de Santo André: O país dos palpiteiros pós-jogo

Uma das coisas que mais me impressiona nesta história toda do “Sequestro de Santo André” é como, após o desfecho, o país se infestou de especialistas. Na TV, no boteco e no orkut, todo lugar está infestado de gente que sabe apontar exatamente os erros da polícia no caso e qual teria sido a solução ideal.

Mas é claro que todas essas pessoas tem formação em psicologia, para entender como o Lindemberg pensa e reage. Todas essas pessoas lidam todo dia com situações de risco, passaram por longo treinamento em resgate de reféns, tem um mapa detalhado do local, conhecem todos os detalhes do desenrolar dos fatos, e acima de tudo, dispõe de um dispositivo fantástico que qualquer polícia do mundo devia ter, que permite visualizar o futuro e saber qual dos rumos vai levar ao melhor desfecho.

Me parece que somos o país dos palpiteiros pós-jogo. Estamos sentados no confortável sofá de casa, assistindo na TV o jogo do nosso time favorito. Nosso time perdeu! “Técnico burro!” Ah, nós sabemos exatamente qual substituição ele devia ou não ter feito, e se fosse um de nós lá, nosso time teria ganhado. É ou não é?

Talvez faça sentido aplicarmos a mesma lógica no sequestro de Santo André. Talvez não seja tão absurdo assim tratar isso como mais um entretenimento televisivo que consumimos, é mais um jogo de futebol, e deste ponto de vista faz sentido ficar fazendo nossos palpites pós-jogo. Mesmo sem conhecimento de causa, sem saber detalhes do ocorrido, do campo, do time adversário. O que vemos na TV é suficiente. Técnico incompetente. Polícia incompetente. Tinha que ser no Brasil. Burros! Ah se fosse eu lá! Eu…

…usaria um Atirador de Elite/Sniper e explodia a cabeça do infeliz quando ele apareceu na janela

Sim, e daí toda a mídia, os defensores de direitos humanos, o advogado, a família, e provavelmente você estariam hoje falando sobre como a polícia é assassina. Sobre a tendência mundial no uso de armas não letais. Sobre como o sequestrador era apenas um apaixonado, não oferecia risco real, como o desfecho podia ter sido pacífico, sem mortes.

…teria invadido muito antes do cara atirar! Pra que esperar?

Claro, porque não! E aí o Lindermberg atira durante a invasão, e todos os já citados, inclusive provavelmente você, estariam dizendo que a polícia foi precipitada. Que havia esperança pra uma solução pacífica. Que o desfecho podia ser pacífico.

…teria preparado melhor a invasão. Com uma melhor estratégia. Aliás, aquela invasão pela escada foi tragi-cômica!

Sim, você fala isso com uma planta do local nas mãos, e um longo treinamento em invasão de cativeiros, entendo. Ah, e ainda conseguiria preparar uma grande invasão sem que os urubus da mídia mostrem pro Lindemberg todos os detalhes pela TV.

…usaria sonífero na comida que colocaram lá pra dentro

Claro que você, usando a bola de cristal, sabe que ele vai comer a comida, e não usar ela só pra alimentar as meninas e poupar a comida da própria dispensa da casa pra ele. Ele é um idiota, jamais pensaria nisso! Jamais pensaria na possibilidade do sonífero, ainda mais com a TV mostrando especialistas ao vivo explicando pra ele em detalhes essas e outras idéias que poderiam ser usadas. Além de tudo, ele não assiste os mesmos filmes de hollywood que você.

…teria invadido enquanto ele dorme

E o Lindemberg, dormindo sono leve, adrenalina a mil, provavelmente com arma em punho, rapidamente levanta e atira nas meninas enquanto a polícia tenta passar pelas coisas deixadas na frente da porta. De novo, polícia precipitada. Podia ter ocorrido um fim pacífico!

Claro que pra essa invasão você teria alguma técnica mágica pra saber se o Lindember está dormindo, sono leve ou pesado, fingindo ou não, tudo isso. Não teria risco. Viva sua bola de cristal!

…teria feito uma análise completa do local, e saberia por onde invadir

Sim, e você sabe da onde que a polícia não fez essa análise? E se a análise resultou na conclusão de que não dava pra invadir com segurança?

…teria desligado a luz, bloqueado celular…

E você certamente tem experiência com sequestros pra saber quando é hora de conceder e hora de apertar o cerco no sequestrador? Como todas essas coisas afetam a cabeça do sequestrador, e melhoram ou pioram a situação. E sua bola de cristal, de novo, mostrou que o desfecho seria melhor assim, certo?

Não quero com isso

…dizer que não devemeos dar nossa opinião, questionar e criticar

Mas emitir uma opinião, questionar “porque tal coisa foi feita assim, e não assado”, como leigo, é muito diferente do que tirar uma conclusão de que a polícia errou, falando como especialista.

…nem concluir que não existiram erros

Minha crítica não pretende isso. Talvez todos os pontos levantados tenham sido erros. Mas nem eu, nem você, nem boa parte dos especialistas que aparecem aí tem gabarito pra dizer isso. Uma análise pericial cuidadosa, fiscalizada por nós, pela mídia, pelas famílias, dirá.

Por exemplo, acho difícil explicar a reentrada da Nayara no cativeiro. Mas quer ver como é perigoso tirar conclusões até nisso, que me parece irredutívelmente errado? Já ouvi três hipóteses, no mínimo, pra isso:

  • A polícia teve a idéia de reinserí-la no cativeiro;
  • A Nayara teve a idéia de voltar, e a polícia concordou;
  • A Nayara tomou a iniciativa de voltar, quando devia apenas conversar com ele pela porta. Não comunicou a polícia da intenção, e esta não conseguiu/tentou impedir;

Todas as três opções tem erros da polícia imbutidos. Mas penso que concordaremos que são níveis diferentes de gravidade: a polícia ter a idéia, e botar a menina lá dentro, é muito mais grave do que ser negligente e não controlar até onde a menina podia entrar, e a própria negligência de colocá-la na área de risco.

O que eu quero dizer é que não concordo e fico indignado com essa mania de palpiteiros de pós-jogo que temos. Fico indignado com a exploração da mídia em cima do fato. Aliás, aos que estão preocupados em achar culpados, já pararam pra pensar que se a TV não estivesse ali filmando 24 por 7 fazendo do Lindemberg um pop-star, mostrando pra ele tudos os movimentos da polícia, dando idéias de quais podiam ser os próximos passos, se nada disso tivesse acontecido e fosse apenas mais um dos sequestros que a polícia lida diariamente, o desfecho podia ter sido bem diferente?

Na boa. Desliguem a TV. Vão ler um livro. Orem pela família da Eloá, que ela encontre conforto nesse momento. Cobrem da justiça uma pena dura pro Lindemberg. Aliás, cobrem medidas pra coibir a violência, o acesso fácil a armas, pra resolver o problema da pobreza. Desliguem a TV. Ensinem aos jovens que não precisam ter namorada pra provar aos outros seu valor, cada coisa tem seu tempo e o tipo de relacionamento que esse pessoal tá vivendo, tá acontecendo cedo demais. Desliguem a TV. Cobrem a investigação pericial, especialista e correta dos fatos. Assistam um jogo de Futebol e critiquem o técnico, isso sim é entretenimento. Mas depois disso desliguem a TV.

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Um pensamento sobre “Sequestro de Santo André: O país dos palpiteiros pós-jogo

  1. André Luiz disse:

    com certeza… as mídias PIG hoje querem fazer sensacionalismo em tudo como em vários casos como esse citado. Eu já sou um indignado a muito tempo… chego a jogar a chinela na TV quando vejo coisas assim… Frequento muito os Sites do Paulo Cesar Amorin e outros do IG que cobrem muito bem esses fatos.

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